quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

CLEAR! SHARP! BRIGHT!

Eisner havia recentemente adquirido o hábito de comprar livros policiais baratos. Ele admitia que não lia o bastante, mas histórias de crime e mistério sempre o fascinaram. Mesmo na mais recente onda de Chandlers e Goodis, Eisner continuava sem o hábito de estar constantemente lendo um livro, isso porque histórias de crime e mistério não tinham uma atmosfera compatível com o calor infernal que fazia lá fora. Por esse motivo, visando aproveitar ao máximo de toda a literatura que tivesse a paciência de acompanhar, ele esperava despretenciosamente uma atmosfera agrádavel para poder ler um de seus livros baratos. E hoje era um desses dias.
Junto de Eisner no ônibus estava uma criança chamada Julian. Os dois haviam se conhecido há pouco mais de um ano, mas quando Eisner começou a namorar a vizinha de Julian, os dois acabaram se aproximando mais. Julian gostava de Eisner e este se perguntava qual seria o motivo. Não que tivesse algum problema de auto-estima grave, mas porque nunca se esforçara especialmente para sustentar esse tipo de relação com a criança. Achava que ele simplesmente passava tempo demais com ela. Na verdade tudo que Eisner fazia era olhar o garoto, quando a mãe, o pai ou o irmão não podiam. E essa era uma dessas horas.
Eisner estava lendo a introdução de "A lua na sarjeta" quando um de seus amigos o reconheceu dentro do ônibus. O nome dele era André:

- Oi cara - ele disse.
- E aí, André - respondeu.
- Eisner, ontem eu assisti um filme do Woody Allen.
- Qual?
- The sleeper.
- Sério?
- Sim. Foi um bom filme.
- Isso é estranho, porque eu assisti ao mesmo filme ontem.
- Sério?
- Sim.
- Bom, eu aprendi que o Allen tem uma visão extremamente pessimista sobre a democracia e que a Diane Keaton jamais deveria fazer comédias que exigissem gag visual novamente.
- Você tá certo. Acho que ele nunca mais fez mesmo.
- Onde você vai passar o carnaval?
- Em casa. Sozinho.
- Vai fazer alguma coisa?
- Acho que não. E você?
- Não. Acho que não.

Eles pararam de conversar por alguns instantes, e André surgiu com um novo assunto:

- A Alicia me mostrou algo que você escreveu esses dias.
- O que ela te mostrou?
- Acho que era um poema. Ou então eram apenas algumas frases, eu não sei. O nome era "Flathead".
- "Apenas algumas frases", eu não definiria melhor.
- Você é aboslutamente auto-biográfico. Eu sei o que aconteceu quando você não quis ir no "Obra" aquele sábado.
- E quem te contou?
- Você dormiu na casa desse garoto. E quando você acordou, não tinha ninguém em casa. Só você e o pai dele.
- Quem te contou?
- E você tomou café lá. E ele te perguntou uma coisa e você ficou com tanta raiva que saiu na mesma hora de lá e foi pra sua casa, e aí já eram quase nove horas da manhã quando você chegou. Nove horas da manhã do domingo.
- André, quem te contou?
- Acho que você fez certo em sair de lá naquela hora. Eu não teria agido de outra maneira. O difícil vai ser encarar a família da sua namorada novamente. Você eventualmente vai acabar tendo que encará-los.
- Não tenho tanta certeza disso.
- Você não pode terminar. Você sabe disso. Não por ela, mas por toda a problemática e todo o constrangimento que a separação de vocês pode acarretar. Você tá meio preso e a razão disso é puramente social.
- André, quem te contou o que aconteceu comigo e com o pai do Julian?
- Eisner, eu estava lá.

Julian estava jogando algo no seu PSP e deu uma rápida olhada para Eisner. Eisner reparou nos olhos do garoto e ficou com essa imagem na cabeça. Rodolfo disse que não havia mais gin para Eisner naquela noite.

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