Johann olhou para o que havia acabado de escrever:
"take a special careful with me/
I am the greatest man of the town/
while I hand up my whyski/
no bloke can let me down"
Johann simplesmente não podia acreditar aonde chegara. E o fizera tão rápido. Há alguns anos atrás, ele e seus quatro amigos, sendo eles Sam, Eliott, Theo e Divah, eram apenas crianças brincando com guitarras, baterias e versos de Ginsberg. Não havia legitimidade na idéia dessas crianças, mas também não havia compromisso. Encarnar beatniks no início do século XXI era apenas a maneira que eles tinham de expressar o que sentiam. Portanto, não importava-os que o seu som fosse vintage de Beatles muito menos que as suas composições fossem de autoria de poetas mortos, eles estavam ali pra se comunicarem com o mundo, à base de álcool e drogas.
Mas a brincadeira fora longe demais. Quatro anos depois, Johann e seus amigos salvaram o rock 'n roll e esse era um fardo que ele não poderia suportar. Sua banda destruiu o mundo: ilegitimou o rock. Porque para Johann, a essência do rock 'n roll estava na sinceridade, estava nos sentimentos que viam de dentro para fora. Se todos os sentimentos que demonstraram então, haviam sido públicados em livros baratos, seu rock era ilegítimo. Mas salvou o movimento inteiro. Consequentemente, o aniquilou. E a culpa, Johann pensava, era toda dele.
Johann estava numa espécie de camarim, e faltavam em torno de vinte minutos para começar o show. Divah, o baterista da banda, entrou no camarim. Fumava.
- Deixa eu dar uma olhada nisso.
- Não, respondeu Johann, amassando o pequeno e falho verso, jogando-o no lixo logo em seguida.
- Qual o problema?
- Eu tive uma epifania.
- Você teve o que?
- Eu tive uma visão, Divah!
- Oh. E o que você viu nela?
- Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura...
- Como assim?
- ... morrendo de fome...
- Johann...
- Divah, eu não posso fazer mais isso. A banda.
- Por quê?
- Porque é uma falsidade. Eu tive uma epifania.
- Você vai deixar a banda?
- A banda me deixou, Divah. Desde o começo. Eu tive uma epifania.
- Vai se foder. Você vai deixar a banda.
- Vou fazer esse show, mas todos os outros vão ser cancelados. Eu preciso fazer isso. Há quanto tempo nos conhecemos, Divah?
- Johann, voce não pode...
- Quantos anos você tem?
- Dezenove.
- Nós nos conhecemos há dezenove anos. Você vai ter que compreender. Eu tive uma epifania.
- Você pode enfiar sua epifania na bunda.
Divah pegou Johann pelo colarinho, levantou-o e jogou-o ao chão e depois deu pontapés, em nenhum lugar específico, apenas ficou chutando, acertando onde desse. Na epifania, Johann estava estendido no chão de terra, em uma cidade antiga onde as ruas estavam encharcadas de poças d'água, como se tivesse chovido há pouco tempo mas, ao invés de água, tinha sangue. Ele não conseguia se mexer, e tudo que podia ver era uma garota que ele reconhecia bem, sendo estuprada por um homem de terno. O homem a violou uma depois duas vezes. Levantou, fechou o zíper da calça, olhou para Johann e disse:
- Obrigado.
quinta-feira, 5 de março de 2009
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